sexta-feira, 22 de março de 2013

Bolsa muda regras e eleva limite de aluguel; decisão é favorável ao mercado?


Limite de aluguel passou de 40% para 50% das ações em circulação; bolsa diz que busca a melhor regulação do mercado, mas analistas divergem sobre os impactos da medida


SÃO PAULO - A BM&FBovespa anunciou, no início da semana, o aumento no limite de aluguel para as ações das empresas listadas na bolsa - que passou de 40% para até 50% do free float (ações em circulação do mercado).
A alteração veio, juntamente, com o aumento exacerbado de aluguel em alguns papéis do Ibovespa - como a OGX Petróleo (OGXP3), que teve seu limite elevado na última segunda-feira, após as posições alugadas alcançarem seu ponto máximo, o que gerou um movimento de mercado conhecido como "short squeeze", que ocorre quando o preço da ação sobe de tal forma que os investidores que se posicionaram vendidos no papel buscam fechar suas posições (ou seja, comprar essas ações) e zerar a posição.
O aluguel de ações ajuda a medir a expectativa de baixa sobre os ativos de uma companhia, pois o investidor aluga as ações e vende no mercado à vista na esperança de recomprá-las mais baratos depois. Ou seja, o investidor se expõe apostando ou antevendo uma queda brusca no preço dos papéis.

Bolsa agiu corretamente?
E em um momento que o Ibovespa acumula perdas de mais de 9% no ano, o mercado levanta a questão se a BM&FBovespa estaria no caminho certo ao aumentar o limite de aluguel dos papéis ou se isso não abriria espaço para mais quedas de determinadas ações que possuem peso relevante no índice?
Consultada pelo Portal InfoMoney, a BM&FBovespa disse que a alteração veio para melhor funcionamento do mercado. Mas os analistas de mercado se dividem entre as respostas: alguns acreditam que não será essa alteração que irá determinar se um ativo cairá mais ou não, enquanto outros apontam que isso pode abrir espaço para mais especulação, e pode impulsionar mais perdas de ativos que já vêm sofrendo na bolsa.
Segundo o operador da Ágora Corretora, Thiago Brandão, a bolsa deve deixar o mercado se autorregular, o que significa que deve elevar (ou reduzir) esse limite quando achar necessário. No caso, se houver muita demanda por aluguel, a BM&FBovespa deve ajustar esse limite para cima, como aconteceu no início dessa semana.
"Toda forma de controlar o mercado é prejudicial. Você segura de um lado, mas impacta de outro. Sou a favor de deixar o mercado mexer por si só para que ele busque seu ajuste natural, que é onde ele se equilibra", disse Brandão.
Há quem aposte em aumento da pressão vendedora
Em contraponto, Richard Rytenband, economista e especialista em investimentos, indica que não é favorável a essa flexibilização da bolsa, uma vez que deixa os investidores mais expostos ao risco ao apostarem contra a tendência primária de alta dos ativos. "A medida contribui para aumentar o risco do mercado, o que pode se tornar muito perigoso num momento de incerteza", disse.
Na mesma linha, o analista gráfico, Luiz Eduardo Borges, da StrategicInvest, aponta que essa medida pode, sim, pressionar e acelerar ainda mais a queda de determinadas ações que estão sendo penalizadas na bolsa. 
Ele indica como exemplo a OGX, que teve recentemente sua recomendação rebaixada por vários bancos internacionais para venda e vem sinalizando uma forte tendência de queda desde janeiro (os papéis já caíram 40,41% somente em 2013). Esse cenário abre caminho para uma maior pressão vendedora, e que com um aumento do limite de aluguel, pode ajudar a jogar o papel ainda mais para baixo, explica.
Além do rebaixamento de recomendações, os bancos também reduziram o preço-alvo dos papéis em meio as dúvidas sobre a capacidade de produção de petróleo da empresa. Na visão mais pessimista, o Bank of America Merrill Lynch cortou o preço-alvo das ações para R$ 1,00 - o que implicaria num potencial de desvalorização de 61,83% em relação ao último fechamento. 
Para outros, mercado deve se autorregular
Brandão, por sua vez, mostra uma visão divergente. Para ele, não é porque o limite para aluguel aumentou que a ação vai cair mais; o que determina esse movimento é o operacional da companhia. Além disso, no caso de OGX, a empresa ainda é muito suscetível aos rumores de mercado, e limitar o aluguel não vai reduzir o nível de especulação no papel. 
"A China estava tentando proibir a venda a descoberto, mas será que essa seria a solução? Você não trabalha na força vendedora somente porque o limite de aluguel aumentou, mas se o fundamento ou gráfico da empresa indica venda", comenta. Vale lembrar também que entre 2010 e 2012 alguns países europeus proibiram a prática da venda a descoberto.
Outro que utiliza linha similar de pensamento é o analista Luis Gustavo Pereira, da Futura Corretora. Para ele, a visão é positiva, mas o que precisa é ter uma metodologia sobre essas alterações.
No caso, a bolsa tem um limite fixado para cada papel com base no free float - que em geral é de 20% das ações em circulação em mercado - , mas quando considerar necessário (ou seja, o papel atingir esse limite), a BM&FBovespa pode realocar os limites - chegando agora até 50% do free float. Ou seja, deixa o mercado à deriva dessas possíveis alterações.
No início de fevereiro, por exemplo, as ações da Eletropaulo (ELPL4) chegaram a subir 13,72%na abertura do pregão com "short squeeze". Horas depois, o limite foi elevado de 28% para 39% das ações em circulação no mercado sem nenhum aviso prévio, da mesma forma como ocorreu com a OGX no fim da semana passada.