Limite de aluguel passou de
40% para 50% das ações em circulação; bolsa diz que busca a melhor regulação do
mercado, mas analistas divergem sobre os impactos da medida
Por Paula Barra
SÃO PAULO - A BM&FBovespa
anunciou, no início da semana, o aumento no limite de aluguel para as ações das
empresas listadas na bolsa - que passou de 40% para até 50% do free float
(ações em circulação do mercado).
A alteração veio, juntamente, com o
aumento exacerbado de aluguel em alguns papéis do Ibovespa - como a OGX
Petróleo (OGXP3), que teve seu limite elevado na
última segunda-feira, após as posições alugadas alcançarem seu ponto máximo, o que gerou um movimento de mercado conhecido como "short
squeeze", que ocorre quando o preço da ação sobe de tal forma que os
investidores que se posicionaram vendidos no papel buscam fechar suas posições
(ou seja, comprar essas ações) e zerar a posição.
O aluguel de ações ajuda a medir a
expectativa de baixa sobre os ativos de uma companhia, pois o investidor aluga
as ações e vende no mercado à vista na esperança de recomprá-las mais baratos
depois. Ou seja, o investidor se expõe apostando ou antevendo uma queda brusca
no preço dos papéis.
Bolsa agiu corretamente?
E em um momento que o Ibovespa acumula perdas de mais de 9% no ano, o mercado levanta a questão se a BM&FBovespa estaria no caminho certo ao aumentar o limite de aluguel dos papéis ou se isso não abriria espaço para mais quedas de determinadas ações que possuem peso relevante no índice?
E em um momento que o Ibovespa acumula perdas de mais de 9% no ano, o mercado levanta a questão se a BM&FBovespa estaria no caminho certo ao aumentar o limite de aluguel dos papéis ou se isso não abriria espaço para mais quedas de determinadas ações que possuem peso relevante no índice?
Consultada pelo Portal
InfoMoney, a BM&FBovespa disse que a alteração veio para melhor
funcionamento do mercado. Mas os analistas de mercado se dividem entre as
respostas: alguns acreditam que não será essa alteração que irá determinar se
um ativo cairá mais ou não, enquanto outros apontam que isso pode abrir espaço
para mais especulação, e pode impulsionar mais perdas de ativos que já vêm
sofrendo na bolsa.
Segundo o operador da Ágora Corretora,
Thiago Brandão, a bolsa deve deixar o mercado se autorregular, o que significa
que deve elevar (ou reduzir) esse limite quando achar necessário. No caso, se
houver muita demanda por aluguel, a BM&FBovespa deve ajustar esse limite
para cima, como aconteceu no início dessa semana.
"Toda forma de controlar o mercado
é prejudicial. Você segura de um lado, mas impacta de outro. Sou a favor de
deixar o mercado mexer por si só para que ele busque seu ajuste natural, que é
onde ele se equilibra", disse Brandão.
Há
quem aposte em aumento da pressão vendedora
Em contraponto, Richard Rytenband, economista e especialista em investimentos, indica que não é favorável a essa flexibilização da bolsa, uma vez que deixa os investidores mais expostos ao risco ao apostarem contra a tendência primária de alta dos ativos. "A medida contribui para aumentar o risco do mercado, o que pode se tornar muito perigoso num momento de incerteza", disse.
Em contraponto, Richard Rytenband, economista e especialista em investimentos, indica que não é favorável a essa flexibilização da bolsa, uma vez que deixa os investidores mais expostos ao risco ao apostarem contra a tendência primária de alta dos ativos. "A medida contribui para aumentar o risco do mercado, o que pode se tornar muito perigoso num momento de incerteza", disse.
Na mesma linha, o
analista gráfico, Luiz Eduardo Borges, da StrategicInvest, aponta que essa
medida pode, sim, pressionar e acelerar ainda mais a queda de determinadas
ações que estão sendo penalizadas na bolsa.
Ele indica como exemplo
a OGX, que teve recentemente sua recomendação rebaixada por
vários bancos internacionais para venda e vem sinalizando uma forte tendência
de queda desde janeiro (os papéis já caíram 40,41% somente
em 2013). Esse cenário abre caminho para uma maior pressão vendedora, e que com
um aumento do limite de aluguel, pode ajudar a jogar o papel ainda mais para
baixo, explica.
Além do rebaixamento de
recomendações, os bancos também reduziram o preço-alvo dos papéis em meio as
dúvidas sobre a capacidade de produção de petróleo da empresa. Na visão mais
pessimista, o Bank of America Merrill Lynch cortou o preço-alvo das ações para
R$ 1,00 - o que implicaria num potencial de desvalorização de 61,83% em relação ao último
fechamento.
Para
outros, mercado deve se autorregular
Brandão, por sua vez, mostra uma visão divergente. Para ele, não é porque o limite para aluguel aumentou que a ação vai cair mais; o que determina esse movimento é o operacional da companhia. Além disso, no caso de OGX, a empresa ainda é muito suscetível aos rumores de mercado, e limitar o aluguel não vai reduzir o nível de especulação no papel.
Brandão, por sua vez, mostra uma visão divergente. Para ele, não é porque o limite para aluguel aumentou que a ação vai cair mais; o que determina esse movimento é o operacional da companhia. Além disso, no caso de OGX, a empresa ainda é muito suscetível aos rumores de mercado, e limitar o aluguel não vai reduzir o nível de especulação no papel.
"A China estava
tentando proibir a venda a descoberto, mas será que essa seria a
solução? Você não trabalha na força vendedora somente porque o limite de
aluguel aumentou, mas se o fundamento ou gráfico da empresa indica venda",
comenta. Vale lembrar também que entre 2010 e 2012 alguns países europeus proibiram
a prática da venda a descoberto.
Outro que utiliza linha
similar de pensamento é o analista Luis Gustavo Pereira, da Futura Corretora.
Para ele, a visão é positiva, mas o que precisa é ter uma metodologia sobre
essas alterações.
No caso, a bolsa tem um
limite fixado para cada papel com base no free float - que em geral é de 20%
das ações em circulação em mercado - , mas quando considerar necessário (ou
seja, o papel atingir esse limite), a BM&FBovespa pode realocar os limites
- chegando agora até 50% do free float. Ou seja, deixa o mercado à deriva
dessas possíveis alterações.
No início de fevereiro, por exemplo, as ações
da Eletropaulo (ELPL4) chegaram a subir 13,72%na abertura do pregão
com "short squeeze". Horas depois, o limite foi elevado de 28% para
39% das ações em circulação no mercado sem nenhum aviso prévio, da mesma forma
como ocorreu com a OGX no fim da semana passada.