sexta-feira, 13 de abril de 2012

PARA QUE SERVEM AS "COLETIVAS DE IMPRENSA"?


 Publicado no Ex-Blog do César Maia em 13.04.2012


(Silvio Waisbord - La Nacion, 05) 1. São necessárias as conferências de imprensa com ampla participação do jornalismo? Nas democracias, as conferências de imprensa são aceitas como um ritual habitual. Eles fazem parte do papel de parede político comunicacional que decora a ação política e as rotinas do jornalismo. Espera-se ainda que os chefes de Estado com "misantropia midiática", relutantes em encontrar-se com o jornalismo em espaços abertos por falta de talento ou interesse estratégico, se submetam a interrogatórios públicos. É equivocado pensar que as conferências de imprensa existem por amor a liberdade de expressão ou pela paixão ao debate aberto, pódio no meio, entre o poder político e o jornalismo.

2. Nasceram e se consolidaram em meados do século passado nas mãos das mudanças políticas e comunicacionais. Eles expressaram o crescente poder de presidentes e primeiros-ministros, e os desejos do jornalismo de estar em pé de igualdade com os funcionários públicos. Eles são o produto de um casamento de conveniência, mas que um sonho lírico democrático ou uma obrigação constitucional.

3. Antigamente, as “conferências” de imprensa propiciavam momentos íntimos em que os presidentes citavam os jornais, especialmente seus colunistas preferidos, para ter conversas em “off”. Eles perceberam que as conferências de imprensa de ampla convocação são momentos importantes para reforçar seu poder comunicacional e político, mas, além disso, poderiam ser submetido a perguntas incômodas.

4. O público principal não é a imprensa, que é pouco mais do que um convidado obrigatório para alcançar tanto eleitores como legisladores. São momentos para que os chefes de estado construam a agenda de notícias e sobressaiam na cena midiática carregada de ruído de informação. São oportunidades para criar "acontecimentos noticiosos" que inevitavelmente atraem o jornalismo. Refletem as ambições de reforçar sua presença na mídia e mostrar suas habilidades de persuasão, enfatizando a importância de determinados temas e objetivos de governo.

5. Se fosse pela vontade daqueles que preparam as estratégias de comunicação oficiais, bastaria que os jornalistas, câmeras, luzes e microfones fossem apenas objetos decorativos. A frequência das conferências de imprensa reflete cálculos estratégicos baseados nos pontos fortes e nos pontos fracos da comunicação de cada chefe de Estado.

6. O surgimento das conferências de imprensa como evento público também expressou o interesse do jornalismo nos países ocidentais para obter legitimidade social, de ser percebido tanto dentro como fora como uma relação estreita e crítica ao mesmo tempo, e em pé de igualdade no que diz respeito ao poder. A demanda por encontros regulares e abertos reflete um crescente consenso sobre princípios básicos, enquanto aumentou a consciência profissional dos jornalistas e a coragem de questionar os chefes de Estado em fóruns públicos.

7. A democracia precisa das conferências de imprensa. São oportunidades para que se tornem públicos, temas que nem sempre se ajustam estritamente a agenda oficial. Não se deve exagerar seu potencial de descobrir verdades urgentes, que são postas em cena montadas com muito cuidado. Longe de serem espaços para diálogos francos, são danças de respeito, com códigos claros, que de tempos em tempos colocam os chefes de governo em situações incômodas.

8. Não existe script firmemente estabelecido, nem surpresas constantes. Mas oferecem um buraco de fechadura à linguagem corporal e expressões faciais do poder oficial, particularmente em momentos em que as estratégias finamente costuradas começam a se desfiar. Como qualquer ritual, oferecem a possibilidade de diálogos impensados, declarações espontâneas que de repente iluminam pensamentos relevantes e uma comunicação não verbal que pode projetar o que não se quer comunicar.

9. As conferências de imprensa mantem um valor simbólico. Indicam a intenção presidencial de falar com todos os eleitores, com a imprensa que aplaude e a que critica, aos próprios legisladores e aos outros. Sugerem que o jornalismo considera necessário exibir suas credenciais de monitor da ação oficial. São rituais que lembram que tanto a política como o jornalismo servem ao bem comum. E resultam emblemáticas da ideia de que a democracia deve ter espaços para o encontro da diferença, e de que a comunicação governamental não deve se limitar a câmaras de eco revestidas com enormes espelhos.



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