Empresário,
diplomata, mecenas. E uma só vida
Por Laura
Greenhalg, de O Estado e S.Paulo
De menino
da roça a cidadão do mundo, a história do mineiro Walther Moreira Salles
(1912-2001), cujo centenário de nascimento celebra-se na segunda-feira, 28, bem
poderia render filme ou livro daqueles calcados em sagas pessoais. Mas a
complexidade do personagem parece maior: a criança que sai aos cinco anos de
idade, em lombo de burro, de Pouso Alegre para Poços de Caldas, cruza um século
de profundas transformações.
Move-se
num Brasil que se urbaniza, numa economia agrícola que se expande para o setor
primário e de serviços, numa capital à beira-mar que envereda para o Planalto
Central. Foi nessa paisagem mutante que Moreira Salles assumiu, ainda jovem, o
controle de uma casa bancária. Depois uma união de bancos. E uma poderosa gama
de negócios em setores como mineração, petroquímica, agroindústria.
Foi
protagonista de momentos decisivos da vida política brasileira. Negociador da
dívida externa, embaixador em Washington, ministro da Fazenda no gabinete
parlamentarista de Tancredo, serviu a quatro presidentes: Getúlio, Juscelino,
Jânio e Jango. No regime militar, quase foi cassado. Quando nada mais precisava
provar e nada se lhe exigiria, criou um instituto cultural modelar, o IMS.
O Estado
produziu um especial com relatos e histórias do banqueiro que virou mecenas,
sem perder o DNA de servidor público. Leia:
Memórias
de um negociador sob medida
ENTREVISTA
- Pedro Moreira Salles, banqueiro
'Ele
teria ficado bem surpreso'. Assim, com poucas palavras, o presidente do
Conselho de Administração do Itaú-Unibanco, Pedro Moreira Salles, define a
reação que seu pai teria, se vivo fosse, diante da crise financeira que abalou
renomadas instituições financeiras em 2008. A voracidade especulativa
definitivamente não combinava com o vinco e o bom corte dos ternos de Walther
Moreira Salles, o banqueiro que mais de uma vez largou o leme de suas empresas
para acudir o País em duras negociações da dívida externa; ou para azeitar
relações bilaterais como embaixador em Washington.
Para
refletir sobre a presença paterna no cenário nacional e internacional,
exatamente no centenário de nascimento de Walther Moreira Salles (que acontece
amanhã, 28 de maio), Pedro concede esta rara entrevista. É também o momento em
que, ao lado dos irmãos Fernando, Walter e João, anuncia o início do processo
de análise e sistematização dos arquivos do embaixador, uma personalidade que
marcou não só o mundo econômico, mas a vida política e cultural do País. A
conversa parte do sudoeste de Minas. É inescapável.
Qual foi
a influência sobre o seu pai do pai dele, João Moreira Salles, que cedo puxou o
filho para os negócios?
Meu pai
falava de meu avô, com quem não convivi, com enorme carinho. Era um homem do
interior, de origem humilde, um comerciante. Há histórias folclóricas sobre
João Moreira Salles, como a de que teria saído a pé de Cambuí para Pouso
Alegre, onde meu pai viria nascer em 1912. A verdade é que a origem dos
negócios foi uma casa de secos e molhados, depois um armazém em Poços de Caldas
e lá o banco nasce como um escritório que negociava títulos dos cafeeiros
locais. Quanto ao fato de meu pai ter começado a trabalhar cedo, creio que era
o hábito da época. A família morava em cima da loja, então provavelmente ele
voltava do colégio, passava por lá e via o pai atendendo os clientes. Isso fez
com que desenvolvesse uma ideia que ficou para a vida toda, de que banco é
serviço. Pessoas servindo pessoas. Depois levou a mesma ideia adiante, servindo
o País.
Nas notas
biográficas sobre seu pai comumente se afirma que ele desenvolveu o traquejo
social que o distinguiria ainda em Poços de Caldas.
Não sei
avaliar isso. De fato Poços de Caldas tornou-se um lugar importante na vida
republicana porque Getúlio Vargas gostava de lá. Enquanto a sociedade do Rio
migrava para Petrópolis, Getúlio preferia ir para Poços. Mas esse trato social
que papai tinha parecia ser algo dele. Meus tios eram pessoas educadas,
cordiais, mas essencialmente locais. Já meus irmãos e eu crescemos numa casa
por onde passaram Henry Ford II, Nelson Rockefeller, Niarchos, Onassis, Mick
Jagger, enfim, meu pai convivia muito bem com essa diversidade. E minha mãe
(Elisa Gonçalves Moreira Salles, morta em 1988), também. Formaram um casal com
grande capacidade de circular num mundo que não era o deles na origem.
Como era
a relação dele com Getúlio?
Foram bem
próximos. Getúlio o indicou para presidir a Superintendência da Moeda e do
Crédito (Sumoc), origem do Banco Central, e finalmente o nomeou embaixador em
Washington, em 1952. Ele contava histórias do presidente, mas uma em particular
me impressionou. Próximo do suicídio, Getúlio o chamou para um encontro no
Palácio do Governo em Petrópolis. Foi um almoço longo, só para os dois, embora
meu pai não estivesse mais no governo. A certa altura, Getúlio virou-se para
ele e perguntou se tinha programa para o jantar. Meu pai respondeu que iria a
uma festa em casa de amigos no Rio, mas quis saber a razão da pergunta. Getúlio
respondeu que não era nada especial, apenas poderiam prosseguir a conversa no
jantar. Meu pai reagiu: 'Presidente, se o senhor me permitir, aviso os amigos e
fico para jantar com o senhor'. Getúlio recusou: 'O senhor é jovem, embaixador,
precisa se divertir. Retiro o convite'. Acompanhou-o até o carro, despediu-se e
voltou, sozinho, para dentro do palácio. Meu pai nunca se esqueceu daquele
último encontro. Guardou a imagem da solidão do poder.
A
política o encantava?
Gostava
de política, mas não era um político no sentido tradicional. Foi convidado a
assumir posições importantes não só com Getúlio, mas com Juscelino, Jânio e
Jango, e assim que possível voltava para o banco. Até o entusiasmaram a
candidatar-se ao governo de Minas. A ideia não prosperou.
Fizeram
história as recepções que ele oferecia na casa que mandou construir na Gávea,
hoje sede do Instituto Moreira Salles no Rio.
Quando
você olha a casa vê que ela tem cara de embaixada. Originalmente era uma
residência espaçosa na área social, com apenas três quartos. Com o tempo ganhou
mais dois quartos, e parou por aí. Recentemente levantamos a correspondência de
meu pai com o arquiteto Olavo Redig de Campos, ao longo de quatro anos, e vimos
que só ele se relacionava com o autor do projeto e a construtora. Falava das visitas
que fazia à obra, do que imaginava estar atrasado, discutia detalhes, enfim,
tudo ele, Walther. Casou-se com minha mãe em 1954, e ela então se dedicou a
selecionar a mobília e as obras de arte. A casa foi uma espécie de instrumento
de trabalho, um lugar que não hospedava, recebia. Quando o Henry Ford II veio
ao Brasil, por razões de logística e segurança ele se hospedou lá. E nós, a
família, tivemos que nos mudar por falta de espaço.
Como foi
o relacionamento de Walther Moreira Salles com Juscelino?
Não tinha
por Juscelino a mesma admiração que teve por Getúlio, em quem reconhecia uma
figura marcante, que modernizou o Brasil mesmo no regime de força. Meu pai
também não aprovava o projeto de tirar a capital do País do Rio e levá-la a um
lugar isolado. A convocação que Juscelino lhe fez é outra boa história: o
presidente o chamou a Laranjeiras exatamente quando, fora do palácio, havia uma
ruidosa manifestação 'fora FMI', de apoio ao governo brasileiro por haver
rompido com o fundo. Só que ao mesmo tempo Juscelino encarregava meu pai de
reatar relações com o fundo. Aquilo era uma jogada política. Papai embarcou
para os EUA com a família em 1959, justamente para atuar na transição do
presidente Eisenhower para John Kennedy, com quem conviveu mais de perto.
Afinal,
quem foi o grande amigo americano de seu pai?
Nelson
Rockefeller. Foram sócios na fazenda de Mato Grosso, depois quando o Nelson
quis sair a candidato à presidência dos EUA e precisava de dinheiro para a
campanha, vendeu a participação no empreendimento para o irmão, David, que era
o banqueiro da família. Muitos acham que o grande amigo do meu pai era o David,
banqueiro do Chase. Mas não foi ele.
Com
Jânio, o embaixador retornou à posição de renegociador da dívida externa, com
Jango assumiu o posto de ministro da Fazenda no gabinete de Tancredo Neves. E
em 1964, no golpe militar?
Por essa
época havia sido indicado embaixador junto à Comunidade Europeia e aceitou.
Fomos para a França no início de 1964, ele já fora do ministério. Então quando
vem o golpe militar, estávamos em Paris. Meu pai até voltava ao País, mas
decidiu deixar a família longe daqui. Ele deveria enfrentar problemas com o
regime, até por ter servido ao governo deposto, mas houve ali uma atuação
decisiva da minha mãe. Ela se valeu de uma relação de parentesco com uma pessoa
próxima do Castelo Branco e desse modo evitou-se uma cassação. Mais adiante,
com Costa e Silva, teria havido outra tentativa contra meu pai e, segundo a
história que ouvi de diferentes fontes, Delfim Netto foi quem teria demovido o
general da ideia. (Solicitado a se manifestar, o ex-ministro da Fazenda
confirma ter argumentado em favor de Moreira Salles, mas fez questão de
ressaltar que 'a sensatez final foi de Costa e Silva').