segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A Morte.Ah, a morte...

Todos os dias em que durmo, acordo muito cedo, leio notícias dos principais jornais do mundo e depois das 5 tomo um banho gelado, visto-me e ando cerca de 60 metros até minha padaria para esperar abrir, tomar cafezinho e comer pão da primeira fornada.  Essa rotina gostosa de entrar, sentar, ver o jornal na televisão,  esperar a atendente trazer o café e o pão com a margarina derretendo é, como se diz na minha cidade, como música de realejo, referindo-se aos passarinhos que pegavam o papelzinho para ler a sorte ou, como se diz aqui no norte, como cantiga de grilo - não muda de jeito nenhum.
Minutos antes da padaria abrir a porta, aparece, montado numa bicicleta, o Pernambuco (hoje soube que o nome dele era Antonio) e, com uma voz grave, própria dos que tomam emprestado por apelido o lugar onde nasceu, solta um "Bom dia!".   É assim, invariavelmente como são as rotinas.
Pois hoje não foi.  Eu, à espera da porta, cheiro de pão assado no ar, chegam outras pessoas, conversam e eu, sentindo falta do companheiro da hora de céu ainda estrelado, comento: "-Meu companheiro Pernambuco ainda não veio...", e um senhor, encostado num esteio, responde: "-E nem vai vir. Pernambuco morreu esta noite, por voltas das 11 horas.  Teve um infarto fulminante."
Gelei. Silenciei uns 2 ou 3 minutos até consertar o rosto e possivelmente a voz para fazer as outras perguntas que se seguem quando se quer saber detalhes.
A padaria abriu as portas, tomei meu café (que hoje me pareceu mais amargos que nos últimos dias dos últimos anos - não me lembro quantos - em que minha rotina me levava até lá.)

A morte, ah, a morte.  Comemoramos o nascimento de cada criança, procriamos sem saber se estaremos vivos até quando aquela criança possa cuidar de si mesma.   Fazemos festa de aniversário, desejamo-nos felicidades a cada ano sabendo, no íntimo, que caminhamos em direção à ela.
Pernambuco não era meu amigo.  Pernambuco não era de minha família.  Pernambuco era conhecido de todos por ter um bar na Avenida. Parecia esbanjar saúde e parecia-me novo, alguns anos mais que eu.

A morte, ah, a morte. Chega sorrateira e às vezes, rápida como quem rouba, vai embora levando alguém.  Curioso é que neste período (em que ela não chega), estudamos, aprendemos a trabalhar, constituímos família, tudo numa tentativa vã de escapar dela, curtir nossas amizades, amores, enfim, esse pedaço que chamamos vida. Brigamos, discutimos, alegramo-nos e fazemos coisas inimagináveis para fazer de conta que ela não virá.  E ela vem.


A morte, ah, a morte.  Amanhã não terei meu companherio.  Nem ele.  Algumas pessoas diriam que a vida é assim, mas hoje eu vi que isso não é coisa da vida.  Descanse, Pernambuco.  Qualquer dia desses ela vem e
leva outros, talvez eu, talvez voce, leitor.  Quanta injustiça.
E nós que acordamos e preparamo-nos para viver... Mas ela não refresca ninguém.