segunda-feira, 19 de março de 2012

"Falta superfície de Contato"

"FALTA SUPERFÍCIE DE CONTATO"!
             
1. Quando surgia uma crise, um impasse, uma dificuldade com setores políticos ou sociais, o presidente Getúlio Vargas repetia sempre uma frase: "Falta superfície de contato". Com isso, queria dizer que o governo não havia desenvolvido articulação política permanente naquele ponto -parlamentar, político, social, cultural- e que a tentativa improvisada de chegar de paraquedas para apagar um "incêndio" só fazia o fogo aumentar e enfraquecer o governo, dificultando a solução.
             
2. O governo Dilma herdou de Lula uma ampla superfície de contato na área sindical e em movimentos sociais, usando os mais diversos expedientes, entre os quais o apoio financeiro via ONGs-laranjas, convênios, transferências do tesouro, etc. E como a interlocução -era e é- permanente aí, essa ampla superfície de contato é a garantia que não se terá surpresas e a probabilidade de crises será mínima.
             
3. Lula era -ele mesmo- a própria superfície de contato com os políticos e partidos. Não havia intermediários. Usava parcela significativa de seu tempo para isso. E delegava -primeiro a Dirceu e depois a Dilma- a burocracia administrativa, que toma muito tempo. Dilma -viciou-se nessa burocracia- e, com isso, seu tempo para ser ela mesma a superfície de contato é mínimo.
             
4. E ainda por cima escolheu para cumprir esse papel quem tem uma visão vertical da relação entre executivo e legislativo. Ou seja, um perfil de quem não tem e não quer ter superfície de contato político. Com isso, o contato só surge na crise em andamento, produz curto-circuito, debilita o governo e produz incêndio onde existia apenas um isqueiro. E não há solução, pois não se reconstrói um estilo político em pouco tempo.
             
5. Salvati como líder do governo no Senado em momentos de grave crise -mensalão- cumpria seu papel de corneteira, porque Lula fazia a superfície de contato. Mesmo que tendo que entregar a cabeça de seu primeiro ministro Dirceu -duas vezes- como ministro e como deputado. Como Herodes -ele deve ter sentido o peso da decisão- mas sua palavra tinha valor maior e teve que atender a Salomé.


Publicado originalmente do ExBlog do César Maia em 19.03.2012